A nova Mãe

Dedico aqui algumas palavras para aquelas mulheres que realizam a complexa tarefa de ser mãe. Acredito que a realização da mulher é algo a ser atingido, com e apesar dos filhos. Sei que a maternidade representa uma das mais sublimes maneiras da realização da alma feminina, mas também sei, por experiência, que é também uma grande armadilha na vida da mulher. Quando nos anulamos durante a educação dos nossos filhos, o que era uma oportunidade de crescimento transforma-se em pressão. Penso que a verdadeira relação é aquela em que mães, pais e filhos conseguem se desenvolver. Como mãe de cinco filhos gostaria de compartilhar algumas reflexões que foram trazidas das minhas experiências. Lógico que existem mais coisas, mas vou me limitar somente a colocar aquilo que eu vivi, experimentei e a que conclusões eu cheguei. Não sou dona da verdade mas a longa caminhada no caminho da maternidade me fez constatar muitas coisas que, tenho certeza, muitas mulheres mães concordarão comigo. Pais e mães que queiram cultivar a própria humanidade e a dos filhos terão que se empenhar nisso todos os dias, pois ninguém nasce com um diploma de boa mãe ou bom pai. Ao sair da maternidade, uma mulher já é tratada como uma santa, pensam que ela sabe tudo o que é preciso saber para ser mãe, e acreditam que ela tenha todas as virtudes altíssimas de compreensão, afeição, dedicação e as mil e outras características que se atribui às mães. Querendo fazer jus a esta cobrança, começa aqui o processo de anulação que, em muitas mulheres, desenrola-se pelo resto da vida. Sei que uma mãe pode chegar remotamente perto disso depois de muitos anos de experiência, pois se aprende a ser mãe e também pai, tanto quanto a criança aprende a se fazer humana. Só se humaniza quem se empenha na própria humanização durante toda vida. É bem provável que nessas circunstâncias, depois dos cinqüenta, sessenta anos, tenhamos diante de nós uma grande mãe, mas esperar a mamãe sabe-tudo e maravilhosa aos vinte e dois anos não tem sequer qualificativo. Quando o assunto é educar os filhos é fácil imitar atitudes, ter a pose, mas a articulação interna é outra coisa completamente diferente, que nasce da gradual assimilação de mil e uma experiências de vida. Deveríamos agradecer e aprender com nossos filhos, ser-lhes gratos por nos dar a oportunidade de revermos – desde o começo – tudo aquilo que somos e sabemos; pela oportunidade de continuarmos desenvolver tanto quanto eles, fazendo-nos a todos, e na mesma medida, a cada dia, um pouco mais humanos. Perdemos totalmente essa oportunidade por força das poses, da mamãe, do professor, e dos adultos que já sabem tudo; os filhos não sabem nada e, portanto, só podem repetir e fazer como todos sempre fazem. Assim se eterniza a estrutura social com todas as suas injustiças. Freqüentemente nós, pais e mães, falamos como se soubéssemos como é a vida e, mais do que isso, como se a vida que estamos vivendo fosse muito boa, quase ideal. Temos que caminhar muito mais como companheiros de aventura num mundo incerto, muitas vezes difícil, cheio de promessas e ameaças, do que funcionar como um guia que já sabe como são todos os caminhos, todos os perigos e todas as possibilidades. Devemos respeitar os caminhos dos nossos filhos e saber que com certeza cada um deles será muito diferente de nós, é preciso confiar que mesmo que você não possa caminhar por eles para poupá-los dos sofrimentos, você estará ali torcendo e acreditando, que eles serão capazes de avançar. Acredito que a mãe consciente está bem na posição do “vamos aprender juntos e lado a lado”. Não vou dizer como são as coisas, mas vamos trocar opiniões sobre as nossas experiências. Você me dirá o que sente, o que pensa, o que imagina e eu farei o mesmo e, assim, em nossas conversas e convívio, iremos aos poucos aprender e viver juntos, trocar modos de ver e sentir, enriquecendo-nos no meio deste diálogo existencial. A nova mãe está muito mais nos olhos do que nos ouvidos! Falar o tempo todo nada resolve; só acompanhando visualmente seu filho tantas vezes por dia, sem julgamento e com agrado, poderemos desenvolver um laço amoroso e prazeroso, um laço de confiança recíproca. Se a mãe vê o filho, o filho vê a mãe. A nova mãe está acima de tudo, disposta a aprender, ela deixa que o comportamento do filho estimule nela tudo que é preciso para que os dois se entendam – ou briguem. Por tudo isso se conclui que mãe não existe. Mãe vai se formando. A mãe que já existia antes – pronta – só pode preparar filhos para o passado. A mãe antiga se considerava mãe vinte e quatro horas por dia, a vida inteira. Como os homens deixaram para as mulheres apenas a maternidade como manifestação digna e respeitável, as mães de ontem se concentram nesse ponto e esquecem que foram filhas e lembram muito pouco que são mulheres. Pensam muito pouco em amor ou em sexo, e acreditam que o principal da sua vida é sacrificar-se pelos filhos, para que eles se façam os péssimos cidadãos que somos todos nós. É uma escrava que se orgulha de sua servidão. Mas a mãe do novo homem sabe, muito bem, que o filho é uma parte fundamental da sua vida, mas que sua vida vai muito além do filho. Nessa postura a nova mãe vai mostrando a seus filhos que mãe é, antes de tudo, um ser humano que se equivoca querendo acertar, que fica irada, que tem desejos, sonhos e que, sobretudo, também tem tesão; é um outro ponto que, às vezes, os filhos não conseguem admitir, que mãe também tem sexualidade, não só para procriar. A educação é um processo de influência recíproca, ao longo do qual as duas ou mais pessoas envolvidas vão se modificando. Também é um processo cooperativo, com inevitável divisão de responsabilidades entre pais e filhos, para o bem e para o mal. Dizem os especialistas em educação que até os sete anos de idade a criança já absorveu os chamados valores tradicionais. Isto significa que a criança de sete anos já é velha e só voltará a se fazer criança, como dizem os entendidos, se para tanto empenhar muito de si. Caso contrário ela será o sistema – até o fim dos seus dias. Cultive em seus filhos a habilidade para descrever como eles a sentem e a vêem. As relações pessoais são transparentes quando, em vez de ouvir o que o outro diz como se fosse uma crítica ou condenação, consigo ouvir uma descrição dos meus maus modos e dos bons também. A partir dessa base, será possível desenvolver relações pessoais com nossos filhos, amplas, profundas e verdadeiras. Quem vive repetindo os velhos pensamentos certamente estará gerando nos filhos o velho mundo. Os antigos sermões maternos, preocupados em determinar regras e condicionar atitudes, devem dar lugar à exploração dos sentidos e a descoberta de novas percepções. Assim, mães e filhos crescem juntos, na medida em que se conhecem cada vez mais.
“Não existe maneira de ser mãe perfeita, mas um milhão de jeitos de ser boa mãe.” (Jill Churchill)
Capítulo do meu livro: Mistérios do Feminino Sonia Milano |